O que é assustador?
Ontem o ficante me disse que sou uma mulher assustadora. Eu sei que sou, mas não entendo direito o motivo. Eu sei que tenho algo de dura, mas também sei que sou doce e carinhosa, sou leal e parceira, só sei amar assim. "É porque você é forte", ele disse, "sua força assusta os homens!". Acho isso injusto, eu não escolhi ser forte, eu precisei ser.
E esse medo que você sempre teve de mim? Será por que eu sou forte? Aí é muito mais injusto, grande parte dessa dureza que tenho hoje vem justamente do amor que tive que sufocar entre nós. Você sabe do que estou falando, você também é cúmplice, também sufocou o seu. Era como sufocar uma fera, uma quimera. Foi preciso muita força bruta. E quem ficou sem ar foi eu (fomos nós?), a fera segue viva.
Então, sim, agora tenho um ficante. É a primeira vez que experimento tentar amar alguém depois que eu e você rompemos. Não foi um término, nunca começamos nada. Foi uma ruptura, o que é muito mais difícil de superar. Foi difícil deixar o ficante chegar, me desfazer das armaduras que vesti pra me proteger de você. Virei um bicho arisco, acostumado a ser maltratado, que aprendeu a morder a mão de quem tenta fazer carinho. Mas é insuportável a vida sem receber carinho de lugar nenhum. Eu tive de mergulhar numa jornada profunda e interior pra aceitar carinho de novo.
Ontem, dia chuvoso, passei a tarde seminua no sofá com o ficante. Não foi sobre sexo, foi sobre carícias. Foi uma daquelas tardes preguiçosas em que a gente fica mais dengosa. O ficante apenas me acariciava e suspirava profundamente, com os olhos colados nos meus. Ele está se apaixonando, eu sinto. Eu poderia me apaixonar por ele, mas acho que não vou. Embora goste dele. O acho bonito, engraçado, revoltado. A revolta me encanta. A revolta dele me desconstrói. Aos olhos dele, me sinto uma menina mimada e cheia de privilégios. E há algo de encantador quando ele me mostra essas impressões sobre mim, desarma minha pretensão. Acho desafiador e sexy um homem que desarma minha pretensão. Mas ainda me pergunto se em algum momento vou conseguir não pensar em você enquanto estou com ele.
Isso é coisa que não se revela, né? Mas só comecei a escrever esse blog pra não me corroer por dentro por todas as coisas que finjo não sentir. Queria poder falar tudo isso pra você. Sempre foi sobre isso afinal. Sempre foi sobre algo maior do que as banalidades que vivemos, com você todo o resto era banal: carreira, relacionamentos, rotina... A gente falava sobre a vida, sobre a existência, sobre a angústia do que é estar vivo, e também sobre as delícias. Você gostava do jeito otimista com que eu via o mundo, ainda vejo, apesar de tudo. Mas você me ensinou a enxergar as sombras, a transitar entre elas. E eu precisava disso pra enxergar minhas próprias sombras.
A gente se juntava pra se curar. Sempre vínhamos, machucados das nossas outras relações, um se aninhar no outro. Sempre que um se machucava, o outro doava energia pra ajudar a curar a ferida. Deliberadamente, intencionalmente. A gente cuidava um do outro. E era sem obrigação nenhuma, só porque a gente queria. Só por amor. Um amor mútuo, sincero e inconfesso. Eu estraguei tudo quando confessei, né?
Assustei você. E também te condeno por ter sido covarde. Não era qualquer pessoa. Era eu. Éramos nós. Independente do que fôssemos exatamente "nós". Nossa relação era sagrada pra mim. E até hoje eu cuspo veneno por ter de romper com algo sagrado. Mas precisei, pra continuar.
O ficante não tem medo de mim. Mesmo me achando assustadora. O engraçado é que em vários níveis ele é bem parecido com você. Também é cheio de ira e orgulhoso, também é dono de uma sinceridade brutal, também parece receber carinho como alguém que já foi machucado demais. E no fim eu também pareço tudo isso.
Talvez por isso eu esteja deixando o ficante chegar tão perto. Ele é familiar. Mas a diferença dele é a única que teria sido capaz de mudar a nossa história: ele escolheu ficar. Desde o início. Ele sempre deixou claro que me quer. Ele diz que foi uma sorte ter me encontrado e me trata como preciosa desde o começo. E é exatamente isso que eu preciso pra me curar de tudo aquilo que eu não merecia, não é mesmo?
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