Quem dera fosse mais simples...

 De repente escrever aqui me fez voltar no tempo. Como se eu tivesse 15 anos de novo. Quando a internet ainda não tinha sido devorada pelas redes sociais. Quando a gente ainda colocava música no subtítulo do MSN. Eram tempos mais simples. Ou não. Eu tentei me matar aos 15 anos. Tomei veneno. Eu sequer passei mal, ninguém viu acontecer. Dormi como se fosse morrer e acordei no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. Naquela época eu não amava viver, eu odiava. Eu sempre senti que era inadequada, que não cabia. Acho que desde lá o que me doía era a solidão. E sabe que isso já era assim desde antes do trauma? Foi desde criancinha, eu nunca cabia, mas até que gostava de ficar sozinha. Eu me escondia, era minha brincadeira favorita. Vivia como uma cobra embaixo de alguma pedra. Sempre me escondia, mas sempre senti solidão.

É forte quando te digo que você foi o amigo de infância que eu não tive. Esse é o mais perto que consigo de descrever o que sinto por você. É como se você coubesse nessa solidão. Como se tivesse a chave desse jardim secreto. Eu não gosto de deixar as pessoas chegarem muito perto de mim, mesmo as que eu mais amo. Mas você meio que pertence... Desde o dia em que ouvi a água, foi como se algo tivesse nos conectado. E eu passei a te olhar como alguém que sempre esteve lá. Alguém que brincava comigo numa infância distante. Eu não precisei deixar você chegar, você já era de casa. É como se você estivesse sempre lá.

Lembro de um dia há não muito tempo, você não tava legal e eu tinha ido na sua casa só pra trocar ideia. A gente passou um tempão caminhando, fumando e conversando, tanto que o seu relógio de pulso começou a contar os passos, como se você estivesse fazendo exercícios. Estava era desabafando comigo sobre as coisas que realmente importam, sobre as coisas que doem, sobre o que te aconteceu. E sobre seus espinhos. E sobre as suas máscaras. E sobre essa raiva que você sente. Eu lembro que te disse que amava quem você é, independente dessas máscaras todas. Independente, inclusive, das coisas que eu discordo. Acho que sempre foi assim, e sempre vai ser. Talvez infelizmente. Não consigo deixar de amar. Não consigo deixar de sentir o que sempre senti: que você é como alguém da minha família, que sou leal a você, que posso passar anos magoada e sem querer falar contigo, ainda assim eu iria até o inferno por você. Eu ainda iria.

Isso não é uma declaração de amor. Na verdade, eu só queria fazer jus a esse amor. Ele não merece o que fizemos dele. Não esse tipo de amor, o que a gente tinha é muito especial. Não merecia de forma alguma todo esse silêncio, todo esse disfarce, todo esse desastre. Toda essa dissimulação. Repito: era sagrado. Não merecia que você me ferisse por não saber lidar com as coisas. Não merecia que eu te ferisse pra tentar suportar. Nós dois nunca fomos sobre isso. A gente não se machucava, a gente se cuidava. A gente traiu o nosso amor. A gente subestimou um encontro precioso. Tudo bem que as coisas acabem, mas não mereciam acabar assim. Foi uma desonra o que fizemos de nós.

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