Dengo Maior

Dia desses, quase que por acidente, ouvi uma música do Luiz Gonzaga que não conhecia. Luiz Gonzaga, por si só, já me lembra você, mas a letra da música me tomou de um jeito... Fala sobre um amor tão grande, que inspira tantas coisas boas, que só quer guardar de si coisas boas. Fala sobre o perdão ou sobre não haver o que perdoar diante de um amor que, na verdade, só traz coisas boas. Depois desse dia, essa música ficou vibrando na minha mente, ecoando você, me fazendo perceber que é exatamente o que sinto: "Nunca houve dengo igual / Se já houve, eu não sei / Como então te querer mal / Se entre nós o bem foi rei".

E, por mais que eu tenha sofrido muito por conta de nós, desse sentimento todo que eu não sei explicar nem parar de sentir, ainda assim, quando penso em você, lembro desse dengo maior. É engraçado, você é uma pessoa para quem eu não cheguei a me entregar por inteiro, a viver por inteiro uma paixão. Por mais amor que eu tenha, por mais carinho, minha paixão, minha intensidade quando me apaixono, com você foi reprimida. Eu guardava, guardei ao máximo, tentando proteger da paixão a nossa amizade. Talvez por isso possa parecer que não foi esse o maior dengo da minha vida, mas foi. É em você que lembro quando penso no tipo de pessoa com quem eu passaria o resto da vida.

De todo modo, eu achava que não precisava lidar com mais essa aflição no momento. Minha torre está caindo. Muitas coisas estão desmoronando na minha vida. Estou tendo de lidar com questões tão complexas. E me vem esse pesamento tão profundo de perdão por você, pela nossa história, e eu ainda assim custando a entender por que o universo estava me chamando de forma tão insistente. Acho que ontem eu entendi...

Meu ex-marido está internado numa clínica de reabilitação. Tentando se desintoxicar de álcool e cocaína. Na verdade, eu nunca vi ele com tanta admiração como agora, e olha que já tenho uma baita admiração pelo pai que ele é. Mas como pessoa, como homem, ele me deu uma prova de coragem. Ele finalmente decidiu encarar os monstros internos dele. E são gigantes! Mesmo com medo, ele foi para aquele lugar. E eu prometi zelar pela integridade dele dentro e fora daquele lugar. É um processo cansativo e desgastante, principalmente no que diz respeito a lidar com a família dele, mas sinto que vale a pena. Vale a pena garantir que o pai do meu filho tenha a atenção necessária para, assim, poder dar a atenção necessária para o meu filho.

Ontem fui visitá-lo na clínica. Por uma confusão entre a família dele, acabou indo só eu e as crianças, foi melhor assim. Lá enxerguei alguns abismos. Famílias que olhavam de forma tão estranha para os filhos lá, medicados, em recuperação da dependência química. Era um olhar de diferença. Um olhar de desumanidade. Um olhar que me incomodou. A família do meu ex tem o mesmo olhar. Ou talvez algo ainda pior, um olhar de desprezo, como se a cada momento eles estivessem esperando a desistência, esperando que dê errado. Olha, eu sei que a porcaria do pó desfaz afetos, eu odeio essa droga desde sempre. Eu vi minha melhor amiga quase perder a vida, eu vi meu mestre de capoeira e meu grupo inteiro se desfazer por causa disso, eu perdi a família que estava construindo pra essa merda, eu perdi você... O pó tem esse poder de fazer parecer que nada mais importa. E quem não faz parte da viagem acaba se afastando ou sendo afastado.

A madrasta do meu ex falou que não consegue olhá-lo nos olhos. Falou dele como se fosse um bicho, um coisa ruim. O desprezo com que falam dele me incomoda. Ninguém tenta falar com ele de igual pra igual, é sempre de cima pra baixo, é sempre do certo pro errado. E olha que ela é alguém que realmente se importa com ele. Da mãe dele, que o despreza, eu ouvi coisas ainda piores. A forma como ele é tratado, como o fato de ser diferente do que era esperado dele parece justificar esse tratamento por parte deles, é o que me faz começar a compreender por que ele começou a enfiar essa merda no nariz pra começo de conversa. Por mais que eu deteste, eu consigo entender que a cocada esteve lá para ele quando ninguém mais esteve. Que, por mais que essa sensação de superpoder, esses amigos todos de farra que parecem estar sempre dispostos, por mais que tudo isso seja uma ilusão, ainda assim essa ilusão ajudou a segurar a onda quando ele não tinha mais nada, quando ele não tinha como consolar a própria dor.

Eu entendi as pessoas que estavam internadas lá. Dopadas de remédio para suportar a abstinência da desintoxicação. Olhada como outros pelos familiares, como loucos. Eu as entendi. Entendi a forma que olhavam, todas elas, como se estivessem prontas pra serem julgadas a qualquer momento. Eu enxerguei o muro que há entre quem usa e quem julga quem usa. Havia uma tensão entre quem recebeu a visita e quem foi visitar. E eu senti necessidade de quebrar essa parede, de cumprimentar todos com alegria, de olhar nos olhos, de ser alegre. De simplesmente ser alegre naquele lugar e tentar alegrar a visita, tornar o momento leve, afinal, quem estava ali buscava a cura. Não é o momento de julgar.

Fui para casa com muitas coisas pra pensar. Pensei em você além de tudo. A bendita música me conectou com você de tal forma que voltei a sonhar com você, voltei a sentir sua presença todos os dias. Senti demais a sua falta. Diante dessa história toda, lembrei de novo do meu aniversário do ano passado, mas dessa vez de uma forma mais humilde. Você me disse que não tinha me dado parabéns porque tinha cheirado a semana inteira, porque era na mesma época do aniversário da sua mãe e você tava cheio de gatilhos. Eu estava com tanta raiva que nem quis te ouvir, só pensei em mim e em como aquilo estava me machucando, só quis me afastar, só não parei de falar contigo aquele dia porque você me pediu para não me afastar - por isso também eu fiquei com tanta raiva quando quem se afastou foi você. Mas depois de tudo hoje eu vejo as coisas de uma forma diferente, hoje eu consigo imaginar a forma como você estava se sentindo e sinto muito não ter percebido antes. Meu ego falou mais alto.

Da mesma forma, eu sabia que no seu aniversário você me afastou de propósito. E não só a mim. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas eu sabia que você estava cheirando. Você sempre disse que eu era incrível demais pra você entrar num relacionamento comigo e me forçar a viver as merdas que tu tava vivendo. Eu ouvia esse tipo de coisa só te achando um covarde egoísta, pensava: "ué, a namorada dele não é incrível o suficiente pra ele não querer que ela passe por isso ou é só uma desculpa pra me manter nesse lugar de estepe, uma desculpa pra nunca me assumir?". Eu realmente não sei a resposta até hoje, mas sei que, se o que você sente por mim for minimamente próximo do que eu sinto por você, eu também não ia querer que você me visse de perto se eu estivesse passando por essas coisas todas. Sinto que você me afastou de propósito, que você não queria que eu visse.

Esse tempo todo eu estive buscando forças pra te perdoar e ver se assim eu consigo deixar essa história pra trás, porque é cansativo pensar em você todos os dias, apesar de toda a mágoa. Achei que te deixaria ir se o perdoasse, mas achava também que nunca ia te perdoar por ter me tratado dessa maneira, por ter me descartado. Mas a situação com meu ex me fez ver que eu também precisava pedir perdão pra você. Pela forma que eu enxerguei a situação só pelo meu ponto de vista. Pelas coisas pesadas que te falei do alto da minha dor e do meu recalque. Por não ter buscado entender por que você entrou nessa merda, por não ter sabido te acolher. Por ter, eu também, jogado nossa história no lixo. Eu reafirmo pra você, nunca foi sobre nós ficarmos ou não juntos como um casal, nunca foi sobre o amor romântico, embora eu sinta também esse amor por você. Eu nem sei se algum dia nós dois daríamos certo, mas eu sei que meu amor por ti é maior do que uma relação que deu ou não certo. Se hoje eu estou enfrentando uma série de batalhas pra apoiar meu ex-marido em sua recuperação, por você eu enfrentaria mais centenas delas sem intervalo, porrada por porrada.

Eu me importo com a pessoa que você é. Eu quero que você fique bem, esteja bem. Espero que você seja compreendido e acolhido da forma que merece. E eu espero que você se abra pra receber isso e reconhecer que merece. Eu sinto muito, sinto muito mesmo por tudo o que aconteceu. E peço perdão por apontar o dedo dizendo que você não me via quando, no fim das contas, eu também não te vi, te enxerguei pelas lentes do meu ego ferido de mulher abandonada. Te olhei com a lente dos meus traumas. E deixei de ver como você estava sofrendo com os seus. Eu não sei se cabe, se a espiritualidade permite ou se eu deveria mesmo te procurar pra dizer tudo isso. Mas sinto que não posso, não devo, não sei se você estaria aberto pra me escutar, não sei se você tem raiva de mim por tudo isso. Apenas preciso materializar meu perdão. O que peço e o que te concedo. Humildemente te perdoo. Humildemente te peço perdão. Finalmente desço do pedestal em que subi pra me preservar e acabei, também, me distanciando do que é importante.

Saiba, você é importante. Pra mim, uma das pessoas mais importantes.

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