Os silêncios
Não consegui escrever mais aqui desde que terminei com o Ficante. Ele me inquieta. Ele me lembra você. Já faz mais de mês que não nos vemos. Mas há uma tensão entre nós. Ele me procura, eu finjo não ceder. A verdade é que ele me resgatou de um lugar gelado, eu sempre tô sozinha tentando pertencer a algum lugar. Eu aprendi a ser sozinha. Eu gosto de ser feliz, não permito que minha solidão me impeça. Aprendi a lidar com a dor. Conviver com ela. Mas é gelado. O Ficante apareceu com um fogo infinito. E me aqueceu.
Eu sempre desconfiei. Desde o primeiro instante. Arisca que sou. Um dia minha melhor amiga me falou que pareço um bicho que foi muito maltratado e morde a mão de quem tenta chegar perto, mesmo que seja pra dar carinho. E eu acho que ela conhece minha alma mais do que ninguém, porque é exatamente assim que me sinto. Eu já fui muito carinhosa, aquele gatinho que pula no colo de qualquer um que oferece um carinho. E já fui maltratada, me fizeram maldades, aprendi a desconfiar do ser humano.
Mas, com o Ficante, houve conexão. Ele me fez ver os espinhos que trago comigo desde que tive que me afastar de você. Doeu em mim também. Eu sinto tanta saudade de ter você por perto. Eu sinto tanta falta de ser tua amiga. Eu me sinto tão incompreendida quase o tempo todo, com você eu sentia que não precisava me explicar, mesmo quando a gente estava em silêncio, eu sinto falta até de fazer silêncio perto de você. Meu amor é tão sincero, tão inevitável. Dói como faca toda vez que penso que não tenho mais você perto de mim. Eu tive que aprender a sublimar o amor e a saudade, mas isso me trouxe sequelas, eu desaprendi a me entregar.
Mas ele apareceu, perto do carnaval, cantando para Oxóssi, trazendo axé no batuque e me chamando a atenção. A gente se apresentou no dia de Iemanjá, logo depois de eu bater cabeça pra ela, pedindo pra me curar de você. Um homem bonito e prepotente. Não sei o que me atrai em homens prepotentes. Acho que porque sou prepotente também. Coisa minha que me desafia o tempo todo, e é bom desafiar. Me tira do que é cômodo demais. Fato é que ele me desarmou. E pareceu um alívio quando ele me desarmou. Foi como caminhar quilômetros com uma armadura pesada e finalmente poder soltar.
Foi bom, mas eu estava arisca. Como não? Desde o começo ele deixou claro que não me escolheria. E eu sabia que não aceitaria menos que isso. É pedir muito? Querer que alguém me escolha apenas uma vez? Eu não sei se estou sendo dramática, talvez precise tratar isso na terapia, mas você sabe melhor do que ninguém como me dói ser preterida. Eu sempre escuto dos parceiros que sou incrível, isso me cansa. Será que eu valho a pena? Entende por que eu me acostumei a ficar sozinha?
Ele não entendeu. Egocêntrico demais. Só consegue entender as coisas do próprio ponto de vista, e eu me explicando o tempo todo. Eu sou intensa demais. E preciso explicar minha intensidade. Queria que ele entendesse sem que eu precisasse explicar. Tem um mês que nos desencontramos, ele segue me procurando, mas sem nunca me encontrar. Ele quer que eu faça o esforço. Eu cansei de me esforçar. Queria receber um buquê de rosas, queria que alguém me chamasse pra dançar. O cara que diz que gosta de mim, que é conexão verdadeira, romanticamente me diz pra deixar de drama, pra gente se agarrar no meu barraco. Eu quero romance, eu não quero me agarrar. Mas quando boto um ponto final, ele vem me procurar... Acho que eu sou o estepe dos sonhos de qualquer homem, querem me ter por perto, mas não sabem me amar.
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